No último Sábado o mundo do futebol parou para assistir a mais uma página do superclássico entre Barcelona e Real Madrid. Mais uma vez a rivalidade esportiva e política entrava em campo e desta vez, pela primeira desde que Guardiola assumiu o time catalão, o Real Madrid despontava como franco favorito para a maioria das pessoas. O time merengue vinha de 15 vitórias consecutivas, líder com folga do Campeonato Espanhol e primeiro colocado em seu grupo na Liga dos Campeões com seis vitórias em seis jogos.
Por sua vez, o Barça havia sido derrotado pelo modesto Getafe e vinha de algumas partidas sem brilho fora de casa (embora some 8 vitórias e 1 empate em casa, com 39 gols marcados e nenhum sofrido). No ano passado, antes do histórico 5x0, todos também apontavam o Real Madrid como favorito e mais bem preparado. O resultado deveria ter feito todos perceberem que não se pode duvidar do melhor time de futebol de todos os tempos. Mas ninguém aprendeu. Alguns até falavam em goleada merengue, em vingança pelos referidos 5x0. Tudo favorecia o Real Madrid. Só faltava o jogo começar.
E começou da melhor forma para o Real. Aos 23 segundos de jogo o goleiro Valdés - o melhor do mundo jogando com os pés - falhou e deu um presente para Di Maria. Este tentou servir Benzema e depois de um bate-rebate, a bola enfim chega a Benzema, que não perdoa. Menos de 1 minuto de jogo. Qualquer outra equipe do mundo levaria um choque. Um banho de água fria. Mas o Barça é o Barça. O time ergueu-se sem sentir o golpe e aos poucos começou a dominar o jogo. Aos 5, Messi quase empata. O jogo era parelho, mas ninguém consegue jogar de igual para igual com o Barça por muito tempo, e na metade do primeiro tempo o Barça já controlava a posse de bola. Perdia por 1x0 na casa do poderoso rival, encontrava-se numa situação complicada na tabela, porque se fosse derrotado o título do Campeonato Espanhol estaria já praticamente nas mãos do Real, que abriria 6 pontos de vantagem com 1 jogo a menos.
Eu via o jogo num Sport Bar em Praga, repleto de torcedores de ambos os times - estudantes erasmus oriundos da Espanha e de vários outros países -, embora a esmagadora maioria torcesse para o Barça. Com camisa e cachecol do Barça, não consegui sentar um só minuto. Estava nervoso, embora confiante, porque não se pode duvidar do Pep Team. Algumas pessoas presentes realmente acreditavam em goleada merengue.
Aos 29 minutos Messi pega a bola, faz fila e assiste o chileno Alexis Sánchez, que empata o jogo. O segundo tempo prometia um duelo duro. Prometia. Porque não foi. O que se viu foi mais uma aula de futebol do Barça. Ninguém aprende, nem o Real Madrid, seu principal aluno.
Pep Guardiola entrou em campo no 4-3-3, com quatro defesas, embora sua vontade fosse jogar no 3-4-3, esquema que causa espanto pela ousadia do técnico catalão. Não é qualquer um que vai ao temível estádio Santiago Bernabeu com apenas 3 defesas. Perdendo por 1x0 desde o início, Guardiola esperou, mas aos poucos o carrossel do Barça engrenou. a variação tática foi importante para ganhar o meio de campo. Daniel Alves avançou como ponta direita, Puyol ficou na lateral. Fábregas variava de meia para centroavante, Iniesta ia para a ponta esquerda. Messi vinha pegar a bola atrás dos volantes do Real e também aparecia como centroavante. Na verdade até se pode falar de 4-3-3 ou 3-4-3 em teoria, mas na prática não há posições fixas, todos giram, todos mudam de posição. O carrossel do Barcelona gira muito mais do que o carrossel holandês de 1974. É comum ver Busquets, o único volante do time, variar para defesa e às vezes aparecer na área adversária.
A passagem do 4-3-3 para 3-4-3 e a engrenagem do carrossel desmontou o Real. Mourinho ficou perdido com mais um nó tático que levou de Guardiola. O segundo tempo foi um banho, um massacre. Aos 6 minutos, Xavi acerta um voleio de longe, a bola desvia em Marcelo e caprichosamente entra no gol de Casillas depois de beijar a trave esquerda. A partir daí, o Real Madrid sentiu e o Barça começou a colocar o time merengue na roda. O famoso tiki-taka, com triangulações com passes de primeira, começou a endoidar os jogadores do Real. Nervosos, restava-lhes partir para a porrada. Desta vez ninguém foi expulso, mas muitos cartões amarelos foram distribuídos. Menos mal, senão Mourinho encontraria mais uma vez na arbitragem a razão da derrota.
Como consequência do domínio em campo, o terceiro gol veio de forma categórica. O Barcelona não tem limites, reinventa-se a si próprio, e matou o Real Madrid usando exatamente a principal arma do rival: o contra-ataque. Conhecido pelo poder de contra-atacar, o Real Madrid foi morto com seu próprio veneno, quando Fábregas, ainda na zona defensiva do Barça, tocou para Iniesta, que deu para Messi carregar, passar para Daniel Alves cruzar na cabeça de...Fábregas! Que havia iniciado a jogada lá atrás. 3x1.
O Barça tinha 60% de posse de bola, e o quarto gol era questão de detalhe. O Real Madrid estava perdido e o baile durou mais de 20 minutos até ao final da partida. Nesse intervalo o Barça poderia ter ampliado para 5 ou 6. Não goleou porque parou para administrar, apesar de Iniesta ter destruído o lado direito da defesa madridista. Foi o nome do jogo ao lado de Puyol. O português Fábio Coentrão saiu de campo atordoado e deve ter tido pesadelos com Iniesta, enquanto a bailarina Cristiano Ronaldo teve pesadelos com o capital blaugrana, que o anulou em campo.
Mas pior do que ser goleado, o Real Madrid teve de contemplar, passivo e sem forças para reagir, algo que talvez seja ainda mais humilhante do que uma goleada. A partir do 3x1 o Barça se poupou claramente para o Mundial de Clubes que disputará esta semana no Japão. Fez substituições e ficou tocando a bola como se estivesse num treino de luxo em pleno estádio do maior adversário. O Real dava porrada, o Barça dava baile, no que foi o jogo de número 221 sem ter menos posse de bola que qualquer adversário, um dado que impressiona e que remete o time de Guardiola à eternidade.
A versão 2011/2012 do melhor time da história mostra estar afinada e preparada para dar sequência ao momento histórico e único que o clube vive. Não se sabe se ganhará todos os títulos ou nenhum e francamente isso pouco importa. Depois de ter ganho tudo nos últimos 3 anos, o que realmente importa é continuar revolucionando o futebol. Sim, porque o que o Barça tem feito é uma revolução profunda. Guardiola é um gênio que gere um time fabuloso, recheado de jogadores fora-de-série que amam o clube onde foram formados desde crianças.
Não sei como esta revolução mudará os paradigmas do futebol mundial. Pode até nem mudar nada, porque dia após dia nota-se que ninguém tem aprendido nada com as lições que o Barça dá. Quem mais no mundo consegue dar show e golear jogando com 3 zagueiros, com 4 zagueiros, sem nenhum zagueiro, com 1 volante, com 3 volantes, com 3 centroavantes, sem nenhum centroavante, em 3-4-3, em 4-3-3, em 3-3-4, em 3-2-3-2, etc? Quem mais joga sem dar chutões desesperados? Quem mais faz triangulações com passes de primeira em seu campo de defesa e até dentro da prória área? Quem mais tem o ataque mais positivo e a defesa menos vazada durante tanto tempo? Quem mais só faz golaços em grandes jogadas trabalhadas? Quem mais ataca durante os 90 minutos, jogando em casa ou fora, precisando vencer ou não? Quem mais consegue ter os três melhores jogadores do mundo em uma temporada? Quem mais consegue ser praticamente imbatível no mundo contando com um time formado quase que totalmente por suas escolinhas de base? Que outro time emprestou seu estilo de jogo e seus jogadores para servir de base para uma seleção (Espanha) ser campeã da Europa e do Mundo?
No Brasil ainda há muita gente que não admite a verdadeira dimensão do Barça de Guardiola. Não admitem por arrogância, prepotência. Os brasileiros ainda acham que o Brasil tem o melhor futebol do mundo. Acordem! Não tem. O futebol brasileiro está decadente. Os times se nivelam por baixo, muito baixo. A qualidade técnica é sofrível. Provavelmente o Santos enfrentará o Barça na final do Mundial de Clubes no próximo Domingo. Se não acontecer nenhuma catástrofe, o Barça deverá vencer facilmente o time paulista. Uma final é sempre uma final, por isso não é normal que aconteça uma grande goleada. Mas a diferença entre ambos os times é tanta que um resultado que reflita verdadeiramente esta diferença entre os dois times é uma goleada devastadora. Um 7x0. Claro que isso não vai acontecer. O Barça, assim como os demais times europeus, não encara esse tal Mundial de Clubes com a maior das motivações. A forma como chegarão ao próximo jogo do Campeonato Espanhol é mais importante. Na Espanha, o torneio no Japão é chamado de Mundialito. No Brasil, incitam os jogadores a darem a vida por essa disputa. É o auge de qualquer time brasileiro. O Santos entrará mais motivado do que nunca, o Barça quer ganhar mais um título, mas é sem dúvida o menos importante de todos que tem ganho. Ir ao Japão é um bela oportunidade de fazer marketing do clube pela Ásia. Mesmo assim, só uma fatalidade pode dar o título ao Santos. O time brasileiro até pode vencer, mas será uma das maiores zebras da história do futebol.
Claro que se isso acontecer, o brasileiro comum, aquele que assiste futebol e não sabe pensar, irá dizer que o Barça não é nada especial, que lutaria para não ser rebaixado se disputasse o Campeonato Brasileiro, e outras pérolas que se lêem pela internet adentro. Se o Santos vencer fará um grande favor à ilusão dos brasileiros, que dirão que seus clubes, com seus sofríveis jogos em slow motion, são superiores aos clubes europeus, que possuem os melhores jogadores do mundo e participam dos campeonatos de mais alto nível.
O Mundial de Clubes resume-se a dois jogos. Uma semi-final e uma final. Dois jogos onde tudo pode acontecer. Dois jogos que não representam a realidade. Ainda está para surgir um Mundial de Clubes credível verdadeiramente representativo do melhor futebol do mundo.
No Brasil ninguém admite a dimensão do Barça da mesma forma que dizem que Messi só será um dos maiores da história se ganhar uma Copa do Mundo. Como se fosse preciso. Como se fosse possível um jogador vencer uma Copa sozinho. Se Messi nunca ganhar uma Copa, azar da Copa, que ficará com menos credibilidade e menos prestígio. A seleção de Messi é o Barça. Tem o DNA do time catalão. Ele não precisa provar mais nada em nenhum outro clube ou seleção para poder ser considerado um dos maiores de todos os tempos. Para mim, já é o maior.
Zico disse que o seu Flamengo de 81 venceria o atual Barça por 4x2. Bem, provavelmente o jogo teria 6 gols, mas todos seriam para o Barça. Um 5x1 é também aceitável. Carlos Alberto Torres disse que a seleção brasileira de 1970, considerada a melhor seleção de todos os tempos, era melhor que este Barça. Poderia ganhar? Claro! Mas se disputasse 10 jogos com o Barça, perderia 7. A Holanda de 74, semente do atual Barça, também não seria páreo. O Santos de Pelé, esse mito que a imprensa brasileira vende como produto nacional, também não teria grandes chances. O Milan de Sacchi e dos 3 holandeses era muito bom, mas cairia no baile, ficaria tonto com a troca de passes e seria devorado. O São Paulo de Telê Santana poderia vencer o atual Barça num jogo único de uma final de Mundial de Clubes, tal e qual como o Santos poderá fazer no Domingo, mas em circunstâncias normais seria presa fácil. Era um timaço, mas não teria hipóteses. Todos os outros grandes times da história perderiam. O Brasil de 82, conhecido por jogar bonito, faria um duelo bonito e perderia de goleada.
Nunca houve nada igual. Devemos aproveitar a oportunidade de ver a história sendo esccrita, porque não sabemos se um dia surgirá algo semelhante. Só quando esse time se desmontar e a magia acabar é que o mundo colocará o atual Barça em seu devido lugar dentre os maiores de todos os tempos. Para mim é o maior time que já existiu. Disparado! Quer se divertir? Vá no Youtube e escreva Barcelona Tiki-Taka. Depois tente comparar com os melhores momentos de outros grandes times da história. Até parece que praticam uma modalidade distinta. O Barcelona reinventou o futebol!








